eu guardo todas as moedas,
o troco de compras que a alma me faz.
meu amanhã , chega todo dia como hoje,
mas não como ontem eu ansiei.
triste é quem pode lembrar.
eu vejo no rosto de todos o mesmo sempre,
ardente razão , para desconfiar do contente.
meu sorriso sem expressão , para cada filho é um presente
a lembraça que cada qual pode guardar.
sou zelosa por meus anos de juventude,
ainda forte , dançando a musica , que a vida tocava.
erros e acertos como parte de minha humanidade,
tantos filhos, e netos, tantas idades
e hoje não posso lembrar ...
quando foi que vieste agora?
tão tarde.
a morte que nasce no vaso , que rego com lágrimas
eu guardo na sala,
mas mal posso cuidar.
todos os vincos de minha mão sofrida
que se encosta em meu rosto ainda quente
me acompanha no caminho escuro , de não estar presente,
quando ainda podia estar , muitos não estiveram comigo.
guarda em tuas mãos meus filhos , todos os meus domingos
pois no vaso a flor cresce , companheira de solidão
triste é aquele que pode lembrar,
pois lembra da decepção.
hoje esquecendo o nome de meus filhos
e a cor de suas riquezas ,
reconheço que o mais importante
é ainda lembrar de suas belezas,
talvez um sorriso , um café , talvez um afago
talvez correndo lá fora , outrora correndo aqui dentro.
existem quadros que não podem puir,
existem imagens que não podem partir
a lembraça e só o contrário do esquecimento,
mas não é a razão pra falta de sentimento.
sou ainda mais mãe, pois meus filhos consigo amar,
mesmo tendo que todo dia tentar lembrar de onde os conheço
um amor sem endereço.
enquanto eu puder sorrir , e na vida algumas salas ainda estiverem vazias
não bote o vaso pra fora
pois vou tentar regar todos os dias .......
